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dezembro 29, 2004

A mão que minutos antes tinha emprestado a um desejo.

Todos temos direito à vida, todos temos direito a viver como queremos, não deveriamos ter também direito a escolher como morrer?

Ela era nova, diziam-lhe que tinha todo o tempo do mundo para fazer o que queria, que tinha a vida pela frente...ela ouvia isto deitada na cama do hospital, aquela cama semelhante a tantas outras onde estivera ontem e anteontem e antes,muito antes até à sua primeira memória.
Ela era nova,talvez demasiado nova para passar pelo que passou, mas também quando é que se é suficientemente velho para enfrentar o fim de uma vida que não se viveu?
Todos acreditavam, ou queriam acreditar, que ela iria sair dali bem,muito melhor do que qualquer um dos que a visitavam, os cientistas, os médicos existem para quê? para curar claro está...
Mas as vezes não é assim, e o que ela tinha ninguém sabia curar, o que ela sofria poucos conseguiam imaginar, o que ela queria ninguém quis aceitar.
Enquanto ela pedia que não a reanimassem quando tivesse um novo ataque,enquanto ela pedia para não a ligarem a um ventilador, enquanto ela na fase terminavel em que estava,no perfeito juizo em que se encontrava, tentava numa aparente calma (porque forças já não havia para discussões) explicar àqueles que a rodeavam o que era parar de insistir em evitar o inivitável, enquanto dizia que não era desistir,mas sim decidir sobre si,sobre a sua vida,sobre a sua morte, cada um daqueles "que a amavam acima de tudo" saiam do quarto batendo com a porta,resmungando monossilabos misturados com soluços sufocados e a cada batida da porta de juntava uma batida do seu (dela) coração...
Quando a última pessoa, que estava o quarto, bateu a porta ao sair, também o coração parou de bater, num soluço bem mais sufocado do que qualquer um dos outros, no entanto, talvez bem mais descansado ou até liberto!

Cá fora os outros discutiam a "tolice que lhe (a ela) deu para dizer", entre os choros da mãe, do pai, da avó. Se calhar todos eles tentavam afogar a sua dor,sem pararem para pensar nela.
Quando a última pessoa saiu do quarto,todos se viraram e viram a porta a bater, todos viram a figura que de lá saia,todos a viram encostar-se na parede e escorrergar por ela abaixo como se à espera que alguém lhe desse a mão, talvez a mão que minutos antes tinha emprestado a um desejo... todos notaram a tristeza daquele olhar,uma tristeza de perda,do que se teve e já não se tem,daquilo que não volta, só depois mais tarde se aperceberam que ouvir já era tarde...

Publicado por impressaodigital às dezembro 29, 2004 01:03 AM

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Comentários

Lindas palavras, fiquei gelado quando lia as palavras, pois transportaram-me para a porta do quarto.

Beijos...

Publicado por: mauro_mars em dezembro 29, 2004 08:58 AM

A morte pode por vezes chegar como um alívio, não é?
Assim é a vida.

Publicado por: JC em dezembro 29, 2004 10:51 AM

Desconcertante... E porque é que custa tanto às pessoas entender que por vezes a morte também pode trazer alívio..? Egoísmo..?

Publicado por: lima em dezembro 29, 2004 11:42 AM

Se por um lado entronizámos o indivíduo no centro do mundo com a Revolução Francesa, por outro lado continuámos a achar que a Família tem sobre esse mesmo individuo responsabilidades no que concerne a ele quando o individuo decide lidar com a morte. Por algum motivo o suicídio é crime, bem como a eutanásia. Mas começam os ventos a mudar, na Suiça e na Bélgica é possível ás pessoas morrerem conforme desejem e os médicos não são punidos por tomarem medidadas que, de acordo com a lei Suiça "minorem o sofrimento do paciente, estando os limites para este apaziguamento nas mãos do paciente, desde que este se apresente consciente".
Cada pessoa é que sabe a dor que suporta, cada pessoa é que sabe o que consegue atravessar, cada pessoa é que deveria poder decidir em relação à sua permanência neste por vezes " vale de lágrimas"...

Publicado por: noiseformind em dezembro 29, 2004 12:04 PM

E dado que tem a ver com o post, cá fica uma notícia animadora:

"Oncologia: EUA Ensaiam Uso de "Ecstasy" em Doentes Terminais"

É caso pra dizer... não haverá nenhum cancro por aí pra mim? E em vez de enfermeiras e médicas nas áreas de oncologia vamos ter strippers, dominatrixes e DJ's... aquilo é que vai ser uma loucuuuuuuuuuuuraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Publicado por: noiseformind em dezembro 29, 2004 12:10 PM

Tudo passa...
O tempo cuida disso...
Mas esquecer é uma benção... e um castigo...
Beijos...

Publicado por: Du em dezembro 29, 2004 09:07 PM

Olá
O teu post está fantástico! Gostei imenso!

Agora uma pergunta... Porque será que as pessoas choram quando os outros morrem desta maneira? Será que são egoistas? (e não estou a ser irónico... é mesmo uma pergunta inocente!)

Tive uma situação um tanto ou quanto semelhante na família há muito pouco tempo e tenho pensado muito nisso...

Greetingz

Ice Tea Addict

Publicado por: IceTeaAddict em janeiro 1, 2005 09:54 PM

NÃO sei se saberei a resposta,o mais certo~é não a saber,mas não creio que o choro seja provocado pelo egoísmo dos individuos,mas sim pela perda,pela falta,pela necessidade de se ter o que não se tem! um afogar de magoas,um forma de aliviar a dor,ainda qu as vezes te sintas sufocado. é certo que para quem morreu,a morte tenha sido um alivio,mas quem está de fora,por mais que até possa entender o alivio dessa pessoa,não consegue evitar a sensação de falta!
talvez seja isso,talvez fosse por isso que eu chorasse...

Publicado por: impressãodigital em janeiro 2, 2005 12:55 AM

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